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Personagem

O Último Turno

Miruna poliu a prata todas as noites por três anos. Na noite em que a Lua ficou vermelha, ela finalmente mostrou alguém que não tinha medo.

Por Equipe Levelite5 min de leitura

A prata precisava brilhar antes de a Lua nascer. Era a regra, e Miruna nunca soube quem a criou.

Sentou-se no banquinho da cozinha com a bandeja sobre os joelhos e passou o pano em pequenos círculos, do jeito que Ilinca ensinara. Seu reflexo se deformava no metal: uma touca branca, uma boca cansada, olhos já vigiando a porta.

"Vai acabar furando", disse Ilinca, junto ao fogão.

"O senhor Vasile disse que a última tinha manchas."

"O senhor Vasile diz muita coisa depois do vinho." A velha cozinheira não se virou. Nunca se virava quando era gentil. "Come alguma coisa, menina."

"Depois."

Depois era sempre a resposta. Depois da prata, depois da louça, depois que os passos lá em cima silenciassem. Miruna comia depois havia dezenove anos.

Acima, um copo se espatifou. As duas ficaram imóveis. Veio uma risada, depois o passo pesado de um homem atravessando o salão, e os ombros de Miruna subiram até as orelhas antes que ela percebesse que se mexera.

Ilinca deixou uma casca de pão ao lado dela, na mesa, e não disse nada. Miruna não tocou.


O frio começou nas pontas dos dedos.

Ela achou que era a prata. Continuou polindo, e o frio subiu pelos pulsos, pelos cotovelos, instalou-se atrás das costelas como uma mão se fechando. O pano escorregou. A bandeja bateu na pedra do chão e soou como um sino.

Ela esperou pelo susto.

Ele não veio.

Em vez disso, a cozinha se abriu. O fogo do fogão tinha voz. Os ratos nas paredes tinham nomes, se ela quisesse dá-los. Lá em cima, uma casa inteira respirava, e sob a respiração havia outra coisa, algo que em três anos de serviço nunca chegara a seus ouvidos.

Tambores. Pequenos, molhados, rápidos. Um no salão. Um na escada. Um no porão, lento e sonolento. Um logo atrás dela, no peito da velha, firme como um relógio.

Corações.

"Miruna?" Ilinca enfim se virara. "Menina, você está branca como leite."

As botas já estavam na escada. Miruna as conhecia. O senhor Vasile subia os três últimos degraus de dois em dois quando estava furioso, e ela aprendera a contá-los como outras garotas contam orações.

Um. Dois. Três.

Ele encheu o vão da porta, afogueado, uma garrafa pelo gargalo. "O que eu disse sobre barulho?"

A mão dele subiu. Isso ela também conhecia. Tinha visto aquela mão subir cem vezes e baixado a cabeça para recebê-la.

Naquela noite, olhou para ela.

Viu o pulso saltar no punho dele, rápido como um pássaro preso, e entendeu algo tão simples que era quase engraçado. Ele não estava com raiva. Nunca estivera. A velocidade daquele coração, o suor na raiz do cabelo, o modo como os olhos dele escorregavam dos dela...

Ele estava checando. Sempre estivera checando se ela ainda deixaria.

Miruna segurou o punho dele antes que descesse.

Foi fácil. Foi tão fácil que a surpresa no rosto dele foi a primeira coisa que ela provou.

"Você está com medo", disse baixinho, na voz que usava para pedir desculpas. Só que, desta vez, ninguém ali merecia uma.


Depois, ela se lembraria da noite em pedaços. O primeiro calor. O som da garrafa rolando. O jeito como a risada lá em cima mudou de tom quando entendeu.

Lembraria o quanto conhecia a casa. Qual porta emperrava. Qual degrau cantava. Qual quarto tinha a janela pintada, selada. Esfregara cada centímetro de joelhos, e agora a percorria sem pressa, escutando, deixando a caçada durar quanto quisesse.

Lembraria que estava rindo. Que não conseguia parar.

Lembraria da Lua.

Ela nasceu sobre a ala leste enquanto Miruna estava na sacada, e estava da cor errada. Vermelha como uma boca aberta. Derramou-se pelo vidro e pintou o mármore, os retratos, a mesa comprida, as próprias mãos dela. Miruna as ergueu contra a luz e as virou, curiosa, como uma criança estuda a neve.

Atrás dela, a casa estava em silêncio.

Nenhum coração. Nem um.

Nem um?

Virou a cabeça.

Um.

Lento. Firme. Lá embaixo, na cozinha, paciente como um relógio.


Ilinca não fugira. Estava sentada à mesa com o pão ainda lá, as mãos dobradas no avental, o fogão ainda morno às costas.

"Pensei que você viria aqui por último", disse.

Miruna ficou na porta, vermelha até os cotovelos. A fome subiu tão forte que seus joelhos quase dobraram. O coração da velha era o som mais alto do mundo.

"A senhora foi gentil comigo", disse Miruna.

"Eu tentei."

"A senhora me deu pão."

"Você nunca comeu."

Miruna olhou para a casca sobre a mesa. Queria dizer algo que importasse. Afinal, recebera da velha a única coisa que ninguém mais naquela casa lhe poupara: não uma ordem, não um pedido de desculpas, não uma mão.

Uma escolha.

"Ainda estou com fome", disse. Saiu pequeno, quase voz de criança, e foi a coisa mais verdadeira que ela dissera a noite inteira.

Ilinca a estudou por um longo momento. Não tinha medo. Essa era a parte mais estranha. Olhava para Miruna como se olha para uma sonâmbula na beira de um telhado.

"Então é melhor não fazer de olhos abertos, menina", disse a cozinheira, com doçura. "Olha a Lua."

Miruna olhou.

E fez mesmo assim.

Nunca fingiria o contrário, nem para o Império que construiria, nem para a dinastia que carregaria seu nome, nem para si mesma. A bondade não a deteve. Só fez com que, pela primeira vez, o silêncio depois tivesse peso.


A madrugada a encontrou no banquinho da cozinha, com a bandeja sobre os joelhos.

Ela a pegara do chão. Não sabia por quê. Passou o pano em pequenos círculos até a prata brilhar, até devolver uma garota com sangue no cabelo, a touca branca torta na cabeça e olhos que não vigiavam a porta.

A garota no metal sorria.

Miruna a olhou por muito tempo.

Depois pousou a bandeja, deixou o pano ao lado e saiu pelo portão da frente, para a primeira manhã de sua vida.

Ninguém lhe dissera que podia.

Ela não pediu licença.